terça-feira, 22 de novembro de 2016

Pessoar

Não sei mais pessoar.
Ando sem coração.
Sentir então, nem mentindo,
já que é preciso sentido
para mentir o amar.

Alguém com pessoância
sabe a significância dos verbos
e entende, por princípio, um não
e olha para um mar de coisas
e sabe o que é pertencimento.

Sem brincar de pessoíces
eu, criança tola, olho o chão
e vejo mil formigas em marcha
levando meus últimos sonhos
e par de olhos secos de gratidão.

Penso, penso. Pessoeio palavrices!
A discórdia nas palavras abruptam-se:
Querem fazer sentenças e fazer sentido.
Se roçam e trepam sobre as cabeças outras
numa pirâmide colossal. E caem!

Palavras pessoentas, sumam!
Que larguem-se em letras e esparramem-se
e despeçam-se de pensar que pesam
como metáforas que jamais serão
das guardiãs de sentimentos.

(Emerson Obara)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Desejos

As vezes aceito a morte por um pouco de vida,
Não na maneira de trocar um desejo por um fim,
Mas na maneira de trocar um fim por um desejo.
Esse desejo de perder algo por escolher algo,
Esse desejo que perde quando escolhe.

No seio da natureza disso tudo,
Entendo que essa perda não encolhe
Mas agiganta quando ganha,
Mesmo que o prêmio dure um átimo de segundo.

Sim, a troca pelo instante é instinto.
É a satisfação da fome não o agrado do plantio.
É trazer a vontade para o agora.
É finalizar a amizade com o infinito.
Aliás, o tempo que tanto descrevo é isso,
É a escolha pela busca dos desejos definitivos.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

a solidão

a solidão machuca poemas,
amputa letras que usam tremas.
a solidão não existe sem o apenas.

a solidão se casa e antes namora.
a solidão é a que nasce e nunca aflora.
a solidão é gêmea irmã de si mesma.

a solidão é o ar que devora
o tempo de uma palavra,
é a estrofe rasa e pequena.

a solidão é pena ou uma caneta,
que gira no ar e escreve inata,
e é a sombra da alma serena.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Grão

Meu coração dói
De tão pequeno
Grão que não
Se reconhece num
Amontoado de areia.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Esse troço de amor

Quem disse que falar de amor é falar feliz
Nunca mexeu com o dito por debaixo da raiz
Esse troço de amor é um ranço que dá comichão
É enganador como cão que quer carinho mas morde a mão.

Quem tenta saber o que é isso
Vive para arrastar as asas pelo chão
Dorme com as dúvidas e acorda com o sermão
O pior é quando faz disso tudo compromisso.

O sujeito que aceita amor, vive a ralhar com a vida
Manda os amigos, coitados, irem tomar no cú
Se antes disso a vontade não vomitar-lhe a língua.

Tenho para mim que coisa essa é ruim
É algo mal, é fundo de poço, é sobra e é fim
Só serve pra deixar-nos sempre à míngua.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Jimmy

Se eu morrer amanhã
Leve meu cão na despedida
Deixe-o enlutar minha sorte
Pois ele me entendeu em vida.
Quando houver dia seguinte,
em suas vidas, sejam humanos,
levem meu cão para uma volta,
para ele entender que em despedidas
um outro amigo ele terá.
Jamais se esqueçam,
levem-no em guia frouxa
Ele não puxa e não corre
quando percebe que não pode.
Só quando ele está livre,
ele vai em correria desmedida.
Chamem-no pelo nome.
Se ele quiser, ele vem,
se ele puder, não virá.
Portanto só o chamem
se dele precisarem.
Ele ganha o que eu como,
como cenouras e acelgas.
Sua ração é seu brinquedo,
Sua bolinha é seu brinquedo,
qualquer mão é seu brinquedo.
O chinelo é pra cheirar.
Jamais o deixem só!
Uma noite eu o deixei
e ele não sorriu no amanhecer.

(Saudades)
Tempos somos

Nossos inevitáveis agoras,
da natureza dos fluidos,
nascidos sob os descuidos
movediços das certezas,
brilham nos grandes escuros
de nossas insones clarezas,
como luz nas luminescências,
tão bem-vindas entre-muros
revividos dos passados.
Nas vacâncias das mãos seguras,
pelas noites esburacadas,
tempos somos, nem tão futuros.

sábado, 21 de novembro de 2015

ventos

Ventos não consertam o tempo
apenas o mudam de direção
sem dele mudar o sentido.

Outrora, como água que suja mão
insolente foi o amor como inimigo
que voltou sem dar passo ao infinito.

Sem remédio para este conflito
o conflito se fez remédio
quando do encontro com o chão.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Contradição

Deveria minha alma doer só onde habita, 
mas não é assim,
ela dói mais nos lugares onde evita
mas não é só assim.

Se dói, mesmo sem dor, a dor me é
sombra da dor que em mim transita.
Se em meu corpo, ela tem sua fé,
em seu tempo também ela é infinita.

Contradição, não sofro,
este subjetivo luto que entranho,
porque dói só o que me é estranho.

Ora o fogo, ora a lama,
que me importa onde está
a dor que me reclama?

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Quimera

Amanheci sem enredo,
nenhuma minha palavra
quisera virar poema,
quimera ou título.

Sem nem ósculo
para tornar tema,
nem um par-de-trema,
trouxe texto ridículo.

Fora uma pena.
Pés sem chinelos.
Silêncios sem mãos.

Estalei meus ossos.
Cocei minha bunda.
Cadê palavra, poema?