domingo, 27 de dezembro de 2015

Esse troço de amor

Quem disse que falar de amor é falar feliz
Nunca mexeu com o dito por debaixo da raiz
Esse troço de amor é um ranço que dá comichão
É enganador como cão que quer carinho mas morde a mão.

Quem tenta saber o que é isso
Vive para arrastar as asas pelo chão
Dorme com as dúvidas e acorda com o sermão
O pior é quando faz disso tudo compromisso.

O sujeito que aceita amor, vive a ralhar com a vida
Manda os amigos, coitados, irem tomar no cú
Se antes disso a vontade não vomitar-lhe a língua.

Tenho para mim que coisa essa é ruim
É algo mal, é fundo de poço, é sobra e é fim
Só serve pra deixar-nos sempre à míngua.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Jimmy

Se eu morrer amanhã
Leve meu cão na despedida
Deixe-o enlutar minha sorte
Pois ele me entendeu em vida.
Quando houver dia seguinte,
em suas vidas, sejam humanos,
levem meu cão para uma volta,
para ele entender que em despedidas
um outro amigo ele terá.
Jamais se esqueçam,
levem-no em guia frouxa
Ele não puxa e não corre
quando percebe que não pode.
Só quando ele está livre,
ele vai em correria desmedida.
Chamem-no pelo nome.
Se ele quiser, ele vem,
se ele puder, não virá.
Portanto só o chamem
se dele precisarem.
Ele ganha o que eu como,
como cenouras e acelgas.
Sua ração é seu brinquedo,
Sua bolinha é seu brinquedo,
qualquer mão é seu brinquedo.
O chinelo é pra cheirar.
Jamais o deixem só!
Uma noite eu o deixei
e ele não sorriu no amanhecer.

(Saudades)
Tempos somos

Nossos inevitáveis agoras,
da natureza dos fluidos,
nascidos sob os descuidos
movediços das certezas,
brilham nos grandes escuros
de nossas insones clarezas,
como luz nas luminescências,
tão bem-vindas entre-muros
revividos dos passados.
Nas vacâncias das mãos seguras,
pelas noites esburacadas,
tempos somos, nem tão futuros.

sábado, 21 de novembro de 2015

ventos

Ventos não consertam o tempo
apenas o mudam de direção
sem dele mudar o sentido.

Outrora, como água que suja mão
insolente foi o amor como inimigo
que voltou sem dar passo ao infinito.

Sem remédio para este conflito
o conflito se fez remédio
quando do encontro com o chão.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Contradição

Deveria minha alma doer só onde habita, 
mas não é assim,
ela dói mais nos lugares onde evita
mas não é só assim.

Se dói, mesmo sem dor, a dor me é
sombra da dor que em mim transita.
Se em meu corpo, ela tem sua fé,
em seu tempo também ela é infinita.

Contradição, não sofro,
este subjetivo luto que entranho,
porque dói só o que me é estranho.

Ora o fogo, ora a lama,
que me importa onde está
a dor que me reclama?

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Quimera

Amanheci sem enredo,
nenhuma minha palavra
quisera virar poema,
quimera ou título.

Sem nem ósculo
para tornar tema,
nem um par-de-trema,
trouxe texto ridículo.

Fora uma pena.
Pés sem chinelos.
Silêncios sem mãos.

Estalei meus ossos.
Cocei minha bunda.
Cadê palavra, poema?

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Soneto do despertar

Não queira me ver com cara de sono
É sonho que tenho nos desgrenhos dos cabelos
Meu rosto não lavado, que medo, que medo
Mesmo eu quando o vejo no espelho, abraço os desesperos

Tenha dó da calça torta, dos braços vacilantes,
do tropeço inevitável tenha pena e não ria
O meu humor ainda não está pras felicidades
Aliás, me observar cambaleante, é algo que eu não faria

Não me recite quando acordar, Descartes
Pois nessa hora, sequer conjuro palavra,
Para entender o que quer dizer "bom-dia!"

Desculpe se eu usar sua escova de dentes
Lá onde estará a minha terá só trinta
Eu só perceberei a errada depois da cara na água fria.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Um dia desses

Um dia desses quando eu quiser
As palavras secas serão ontem
Dois dias depois desse dia qualquer
Nascerei outro filho de alguém

Talvez Emer ou Fernando ou Carlos
Ou Vinícius para quem vier de longe
Buscar espaços onde estacionados
Os sonetos juntem-se em um e cante

Orvalho nenhum é nascido do Sol
Mas sem Sol seria alva neve
Broto eu surjo num chão espanhol
Este mundo lá não verá que me teve

Saudade da infeliz vontade que nó
Na garganta fez tumulto de emoções
E rastejou e implorou-me por dó
E fitou-me por não tornar-se sensações

A vontade é essa manhã que vem
De graça, tomar ar, água e sorvete
E passa passarinho que vento vem
Sob as asas que batem bem leve.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Raízes

O tempo chegou hoje de viagem
E a minha melhor felicidade não tenho para oferecer.
Enquanto ele faltava eu sorria, sorria, sorria,
Mas o tempo era maldoso e não vinha.
Não, não era maldade com culpa, ele não sabia,
Que felicidade eu tinha para oferecer.

A luz da tarde apronta no meio do céu
Com a metade da vida que passa 
Onde é que está a outra metade da vida, não vem?

- O vento, o vento, o vento - as árvores se dizem.
Árvores são as filhas do tempo
Porque não são vidas pela metade,
São raízes expostas e etéreas que sorriem, sorriem,
Sorriem para a tarde que vem.

sábado, 25 de julho de 2015

Sono

Amo-te tanto tanto tanto
Amo-te em teus quartos-sonos da vida
Teu quarto quente e teu quarto brisa
Teu quarto instante e teu quarto tonto.

Olho meu beijo em seu corpo anuviar-se
Olho meu sono em sua pele esperançando
Teu corpo é meu calor e é pranto
Teu corpo é o meu sono fantasiar-se.

Esquecemos tudo na luz do dia
Esquecer é o seu desperta-me
Tua voz que é bom-dia sussurrante
Tua voz que em meu dia silencia.

domingo, 21 de junho de 2015

Coragem de rir

Vejo homens que não tem coragem de rir,
porque, sim, para rir, é preciso coragem.
Coragem de olhar para dentro de si
e ver a pedra que reflete a sua imagem.

Observo crianças que brincam, que brigam,
que brincam de brigar e fingem a dor sentindo
que o sentimento da dor irá se apagar.

As mulheres de minhas imagens preferidas
são fortes, são gentis e coloridas e, quando mães,
são os alimentos da vida e, quando mulheres,
são os sorrisos da vida, e são gentis
e são fortes e coloridas.

Em meu olhar sobre os alguns dias
eu vi homens, crianças, mulheres
e feridas. Eu vi minha pedra me olhando,
me olhando, me olhando.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Poema sem  nome

Poesia é musicar palavras
Música é harmonizar poemas
Poema é pra musicar a alma
Alma é o almejar apenas.
Navegar nada mais é que navegar
Nas mudanças do claro das águas
Ou nas mudas de mágoas pequenas
Mudas as ondas, finda a mágica.
Ficam as lágrimas serenas
pois cá preciso lavar as pálpebras
Apóstrofos se vão, não os uso
prefiro admirar anáguas.
Sento no chão e conto às formigas
-Navegar nada mais é que navegar
e poesia é musicar palavras.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Tecidos

Por debaixo da linha tênue e macia que reveste o silêncio,
existe um intenso ato de procrastinação,
em remanso denso e quieto.
Falácios movimentos ali estão.
Nas imagens que anuviam esta vista silenciosa,
resguardam-se as que não serão tocadas pela memória.
Tecido grosso ou fino, de seda ou de algodão,
é indiferente o que cobre e aquece o corpo na escuridão
mas, tal qual um comum tecido, felizmente permite
que o ar por ele adentre e que ele respire
também seca ou molhada emoção.
O corpo coberto por este tecido
(talvez, aqui, um cobertor),
também como outro qualquer tecido,
guarda o calor da sua história
e o sentido de outro vivo relevo e imensidão.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Quantos beijos

Enquanto minha mão
buscava a sua intimidade,
minha boca seca
detinha - se,
tentada que estava
a conhecer sua língua,
os seus dentes
e o seu riso de piada.
Tudo de uma vez e ao mesmo tempo,
tudo agora e em silêncio
sem silêncio.
Tantas unhas
cravam - se em
minhas costas.
Quantos beijos!
Quantos beijos?
Para de pergunta!
Quantos beijos!
Minha mão encontra
a alma que deixaste divagar.
Mais silêncios sem silêncios. 
Desejo

Eu, que beijo você em vida,
não entendo essa bem-vinda
vontade de te perder

naturalmente, naturalmente.
É  bem quista a sabedoria
de sobriamente me entreter.

Onde não gozo de seu desejo,
na esbórnia, um vento fosco,
esfrega-me na angústia.

Para comigo me reconciliar
o tempo está vacilante,
está sem flor. Está sem luta.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Eu – encontrar

Eu, que te amei,
Que te amava,
Que te amo.
Que te olhava como madrugada
E te despia os pés no silêncio morno.

Eu, que não fugi,
Busquei a sua palavra
Em sonho e sorri.
Acordei e ri.

Eu, que deslumbrei – me,
Era a luz que amanhecia?
E desejei – te. E desejei – te.

Eu, que te amei, não fugi,
Deslumbrei – me. Eu, o que queria:

Encontrar – me aqui.
Amemos, pois!

O barco é nosso 
O casco está furado 
Porque o furo é nosso 
Também há dois remos 
São nossos estes dois remos 
Há pressa pra não afundamos?
Se isso há , é nossa a pressa
Se mesmo com todo esforço 
Nada mais tiver um jeito 
O nada também é nosso. 
Então nada mais, nada mais, 
Os braços também são nossos.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Fim de ano

Neste ano que acaba
Festejei minha ausência
E beijei a indiferença
Que sorrindo me atormentava.


Neste ano que acaba
Os dias iniciaram chatos
As noites terminavam chatas
E a terapia, esta maltratava.

Neste ano que acaba
As verdades machucaram
E a maldade hibernada
Despertou de onde estava.

Neste ano que acaba
Conheci da vida o hiato
E flutuei num inferno-tempo
Pra nascer em novas águas.

Neste ano que acaba
Meus muitos agradecimentos
Às broncas, aos sorrisos tensos,
Aos abraços e silêncios que abraçaram.

Neste ano, o que acaba
É tudo que fazia-se infinito
E tudo o que era fantasia.
O ano que virá, será real e mais bonito.