sábado, 20 de dezembro de 2014

A construção do amor

Antes que o nada viesse
E contemplasse espaços pequenos,
Oferecidos à solidão que nasce,
Do lugar nenhum dos silêncios,
Universo algum existia.

No amor a fome é o alimento,
A perda, é tal luta tardia,
Para encontrar no outro o tempo.

Com vestes de poesia e brio,
Feito relento embrulhado em luar
O objeto de amor é algo vazio.

Ao sereno, à compreensão, ao ar,
Nega-se a compartilhar o frio,
Mas compartilha o silêncio menino
Pequeno e terno, que já foi um
Maior pedaço de instinto.

O amor constrói-se no nada algum
Sempre em pedra bruta surge
Cheia de partes sem fim,
Confiando, que nascido com vontade,
A vida o queira preenchido enfim.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Era

Boa era a vida distante da realidade
Os meus problemas pequeninos
Eu deixava pra saudade
Toda construção de meu conforto
Era feita de tijolos num chão de areia
Sempre que chovia eu a reconstruía.
Vez em quando, quando havia
Um sol lá pelo meio dia, 
Eu abria as janelas para a vida
Entrava luz, entrava pó, 
entravam cantos migratórios
E cores de poesia. 
Vinha a chuva... eu deixava pra saudade
Certo dia observando os entulhos 
Que ficavam ao relento
Percebi que daquilo eu era feito
Sentei-me no chão e me misturei
Às areias e ao vento.
Os sentimentos do mundo

Olho para os lados
para entender melhor
os sentimentos do mundo
Encontro na dó pedintes
de centelhas, para corações
que buscam aquecer um sol
Na bela flor de pétalas pequenas
enxergo gotas de vidas serenas
onde bebem do amor as borboletas
Vejo no rio que corre um espelho
do olhar perdido no compromisso
de percorrer seu próprio silêncio
Eis que pregam-me sustos
todos os ventos das saudades
em beijos longos pelas costas.
 Ai, a espera!

 Reservei minha manhã toda para ela. Ela irá chegar atrasada porque dirá estar com cólicas.
 Bem digo que o dom da paciência é do homem. Não uso relógios. Se usasse, os quebraria todos, porque preciso esperá-la.
 Chega a tarde, me reinvento. Almoço lanche e refrigerante, que me desperta. Resolvo andar. Me sentar. Andar. Andar. Andar. Me sento para ler O Livro do Desassossego. É grosso o livro e só estou no começo. Meus pés batem no chão. Batem um no outro. Chacoalham agora. Uma criança grita do meu lado. Sinto dores gerais. Uma perna sobre a outra. A outra sobre a uma? Tudo desconforta. Nada dela. Outra criança. Esta para e chora. Nenhuma impaciência pode comigo agora. Vou para a rua. Ela não virá até mim. Vou esperar, ela virá até mim. Não sei dizer o que é isso. Paciência jamais. Dor sobre dor vem agora. Isso me parece possível e muito normal agora. Não somos possíveis eu e ela agora. Éramos importantes um para o outro antes, é o que julgo. Devo estar pensando assim para compensar a espera. Anoiteceu. Ela não veio. Vou-me embora deste lugar e não volto mais.
Foi o tempo

Foi o tempo
Inventando o silêncio
Quem musicou vento
E observando palavras
Em agitadas tormentas
Acabou criando serenatas
Com este dueto
Extraordinário e intenso
Partiu-se compreendido 
Em caso de

Foi só olhar de perto
Que ela enrubesceu
Foi por acaso ou reflexo
Que roubei um beijo seu?
A minha vontade, sabia,
Era encontrar-te em uma travessa
De um pedaço de mundo
E pregar-te uma peça?
Por diversão ou por fantasia
Pintaste um beijo em minhas costas
Riu de mim e eu só dormia
Na hora dessa troça.
Não sabemos quem começou
A brincar de amar a vida
Do modo como o sol
Nunca brilhe só de dia. 
Mãe ou mar (nascimento)

Amor sem data.
Intenso sem vento.
Som sem água.
Ar sem tempo.
Foi algo mágoa
Ou voz querendo
Cursar um rio
Que corre nascendo
Mãe ou mar.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Novas Palavras, sem finitudes

Queria que as palavras
Entendessem com suas curvas e retas
Cheias de sinuosas estradas incertas
O quanto elas eu amava.

Deixaram-me essas palavras
Divagar nas águas caladas
Onde a luz para as ler divagadas
Afogava-se sem interpretar nada.

Remando o meu barco dos instantes
Navegando sob céu de certezas poentes
Ouvi dos ventos histórias cintilantes
Com palavras de um mundo nascente

Eram novas palavras, sem finitudes
Que juntavam letras em frases gigantes
Tomadas de sons e de vontades
De sussurrar a um coração errante.
Sonhava ver estrelas

Foi na noite que eu aprendi
Que a vida não acabava
Eu sonhava ver estrelas
Enquanto o céu anoitava

Dizia quando me extasiava
-Ao céu as estrelas- e "voilá"
Uma estrela gigante acordava
E acordava estrelas e acordava

Certa noite pensei forte
Queria a luz do mundo
Toda ela acendendo
Bem na ponta do meu dedo

Nasceu assim a lua
Que por dias fez-se cheia
Até que ensinei-a a ser sorriso
E também virar silêncio.

Como última vontade
Antes de meu amadurecer
Amanheci meu céu de rosa
Para agradar-me do firmamento.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Águas

Todas as águas são sagradas
Salgadas se são, banham as almas
E enchem de sal as palmas das mãos,
se descem a face, traçam a vida de nãos
Se beijam os pés as águas salgadas
Virão sem viés para levarem as úmidas mágoas
E areia delas farão e das areias farão chão
E de chão caminho, para ver como os novos caminhos serão
Se as águas chorarem doces
Nos pés de serras e nos orvalhos das flores
Da vida molharão as sedes e o cansaço dos corpos
Levarão como sangue, alimentos para os seres todos
Lavarão o sal dos rostos depois das dores
Subindo aos céus depois para chover num mundo de cores
Se as águas doces em extremos decidirem ser branco gelo
Haverão almas felizes que brincarão no frio duro

Sagradas são todas as águas
Que beijam as vidas dos viventes.